Porque é que preservar os processos de investigação pode ser tão importante como preservar os próprios dados?

Como garantir a sustentabilidade de projetos digitais perante a rápida obsolescência tecnológica?

De que forma a documentação contribui para a reutilização futura de dados e recursos digitais?

DESCRIÇÃO

O Arquivo Digital do Livro do Desassossego constitui um projeto de investigação e edição digital dedicado à obra de Fernando Pessoa, desenvolvido segundo princípios de ciência aberta desde a sua conceção. O projeto disponibiliza em acesso aberto os textos editados, os respetivos autógrafos, os modelos de codificação utilizados, a documentação associada ao processo editorial e grande parte do software desenvolvido para a plataforma. A disponibilização do código-fonte através do GitHub e dos materiais científicos através do repositório institucional  da Universidade de Coimbra permitiu criar um ecossistema orientado para a reutilização, transparência e preservação do conhecimento produzido.

Paralelamente, o projeto Joanina Digital representa uma iniciativa de digitalização em larga escala do património bibliográfico da Biblioteca Joanina. O projeto envolve a digitalização de cerca de 30 000 volumes e milhões de páginas, combinando processos de catalogação, preservação digital, desenvolvimento de plataformas tecnológicas e aplicação de tecnologias emergentes, incluindo inteligência artificial. Desde as fases iniciais, existe uma preocupação explícita em documentar não apenas os produtos finais, mas também os processos, decisões, requisitos técnicos e modelos conceptuais que sustentam o projeto.

Em ambos os casos, a gestão de dados de investigação é entendida como uma componente essencial da sustentabilidade e reutilização do conhecimento, abrangendo não apenas os resultados produzidos, mas também os processos, decisões, metodologias e infraestruturas que lhes dão origem.

TRÊS LIÇÕES APRENDIDAS

Planear a preservação e a sustentabilidade desde o início

Uma das principais lições aprendidas é a necessidade de definir, logo no arranque dos projetos, estratégias de médio e longo prazo para a preservação, documentação e partilha dos dados. A sustentabilidade futura de um projeto digital não pode depender exclusivamente dos seus criadores, exigindo planeamento que assegure a sua manutenção e reutilização ao longo do tempo.

Documentar os processos é tão importante como preservar os resultados

A experiência demonstrou que não basta disponibilizar os dados ou os resultados finais. É igualmente fundamental documentar as decisões tomadas, os modelos de dados, os sistemas de codificação, as opções metodológicas e os processos de desenvolvimento. Esta documentação é indispensável para compreender, reutilizar, migrar ou reconstruir sistemas digitais no futuro.

Os dados de investigação incluem a história do próprio projeto

Uma terceira aprendizagem relaciona-se com uma visão alargada do conceito de dados de investigação. Para além dos dados produzidos diretamente pela investigação, devem ser considerados os registos do processo de trabalho, os testes realizados, os contributos dos utilizadores, as sucessivas iterações de desenvolvimento e os processos de tomada de decisão que moldam a evolução dos projetos.

TRÊS DESAFIOS FUTUROS

Garantir a longevidade dos projetos digitais

O principal desafio consiste em assegurar que os sistemas desenvolvidos continuem funcionais perante a rápida obsolescência tecnológica. A preservação de plataformas complexas requer mecanismos que permitam a sua manutenção, migração ou emulação em ambientes tecnológicos futuros.

Reforçar a documentação técnica e organizacional

A documentação continua a ser uma área particularmente crítica. Um dos desafios identificados consiste em garantir que todas as alterações, funcionalidades e decisões técnicas sejam adequadamente registadas, permitindo a compreensão e manutenção futura das plataformas e sistemas desenvolvidos.

Integrar a documentação como parte estruturante dos projetos

A gestão e documentação de dados exigem tempo, recursos humanos e orçamento próprios. Um desafio importante passa por incorporar estas necessidades desde a fase de planeamento dos projetos, reconhecendo que a documentação sistemática representa uma atividade essencial e não apenas complementar.

CINCO QUESTÕES SOBRE GDI

Como define, implementa e avalia as práticas de gestão de dados de investigação?

A gestão de dados assenta numa lógica de abertura, documentação e reutilização. Esta abordagem materializa-se através da disponibilização pública dos dados, dos modelos de codificação, do software desenvolvido e da documentação produzida ao longo do ciclo de vida dos projetos.

A implementação destas práticas apoia-se igualmente na recolha sistemática de documentação interna, memorandos de reunião, requisitos técnicos, decisões metodológicas e especificações funcionais. No caso da Joanina Digital, foi assumida a intenção explícita de tornar pública uma parte significativa desta documentação, permitindo compreender não apenas os resultados alcançados, mas também o percurso seguido para os atingir.

Relativamente à avaliação destas práticas, não existe um modelo formalizado ou uma checklist estruturada que permita verificar de forma sistemática o cumprimento de todos os requisitos de gestão e preservação dos dados. Considera, contudo, que essa formalização será uma evolução necessária para o futuro.

Quais os principais benefícios dessas práticas?

O principal benefício identificado é o aumento da longevidade e sustentabilidade dos projetos digitais. Uma documentação rigorosa reduz a dependência dos seus criadores originais e facilita a continuidade futura das iniciativas.

Estas práticas promovem igualmente a partilha de conhecimento especializado entre equipas e instituições, permitindo que novos projetos beneficiem de experiências anteriores e evitando a repetição de processos já realizados por outras comunidades científicas.

Por fim, a preservação dos dados e dos processos contribui para a construção de memória científica, constituindo um recurso relevante para a história da ciência, da investigação e da produção de conhecimento.

Em que medida a gestão de dados de investigação contribui para a otimização do processo de investigação?

A gestão estruturada dos dados contribui para tornar mais visíveis e articuladas as diferentes componentes de um projeto de investigação. Em contextos multidisciplinares, facilita a integração dos contributos produzidos por equipas com formações e competências distintas, promovendo uma visão comum dos objetivos, processos e resultados.

A existência de planos de gestão de dados e de mecanismos de documentação contínua favorece também a coordenação interna, o acompanhamento das atividades e a articulação entre os diversos fluxos de trabalho, aumentando a eficiência global do processo de investigação.

Que vantagens e condicionantes aponta na partilha de dados de investigação?

Entre as principais vantagens destacam-se a promoção da reutilização do conhecimento, a transparência científica, a preservação da informação e a criação de condições para que outros investigadores possam desenvolver novos trabalhos com base em recursos existentes.

Contudo, a partilha de dados levanta novos desafios num contexto marcado pela crescente utilização de inteligência artificial. Muitos conteúdos disponibilizados em acesso aberto foram posteriormente utilizados para treinar modelos comerciais de IA, gerando novas questões sobre reutilização, apropriação do conhecimento e benefícios decorrentes dessa utilização. Esta realidade introduz novas reflexões sobre os modelos de licenciamento e sobre os destinatários efetivos da partilha dos dados.

De que forma os diferentes atores envolvidos no processo de investigação estão comprometidos com a gestão de dados de investigação?

Existe uma distribuição clara de responsabilidades entre investigadores, bibliotecários, especialistas em informação e engenheiros informáticos. No entanto, o sucesso dos projetos depende menos da simples divisão de tarefas e mais da capacidade de integração dos diferentes contributos.

É de destacar a importância da comunicação contínua entre equipas multidisciplinares, da construção de vocabulários comuns e da criação de espaços de coordenação que permitam aproximar culturas profissionais distintas. A gestão de dados surge assim não apenas como uma questão técnica, mas também como um processo organizacional e colaborativo, dependente da articulação eficaz entre diversas áreas de conhecimento.

 

 

Disponível em breve

PROJETO

Arquivo Digital do Livro do Desassossego e Joanina Digital: da preservação dos dados à preservação dos processos de investigação

ENTIDADES

INVESTIGADOR
ENTREVISTADO
O INVESTIGADOR
RESPONDE

(Vídeo disponível em breve)

CINCO QUESTÕES SOBRE GDI

DOMÍNIOS CIENTÍFICOS

Ciências Sociais e Humanas

ETAPAS DO CICLO DE VIDA DOS DADOS

Preservação

Partilha

Reutilização

DATA DE RECOLHA

Julho de 2026